Uma guerreira contra a Febem
Revista Caros Amigos Capa: Febem, o primeiro dos Infernos "Uma Guerreira Contra a Febem" Entrevista com Conceição Paganele (Presidente da AMAR) Ano V - Número 60 - Março de 2002
Uma guerreira contra a Febem
Conceição
Paganele é mãe de muitos filhos. São cinco de sangue, um de adoção e
milhares de outros – os internados da Febem. Ela é presidente da AMAR –
Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco. Sua
luta é contra a ilegalidade e a arbitrariedade da Fundação do Bem-Estar
do Menor do Estado de São Paulo – responsável pela guarda de 4.700
crianças e jovens de 12 a 21 anos de idade em 57 unidades de
internação. Viúva, criou os filhos sozinha e fez de tudo para proteger
o caçula, dependente químico há seis anos, sem conseguir qualquer tipo
de amparo social ou médico. Aos 16 anos, já viciado em crack, Cássio
foi preso e internado na unidade do Tatuapé. Conceição enxugou as
lágrimas e foi para o front: munida do Estatuto da Criança e do
Adolescente e de seus direitos maternos, passou noites na Febem, mediou
rebeliões, denunciou torturas e maus tratos e se uniu a outras mães
para fundar a AMAR, que em 2001 ganhou do governo federal o Prêmio
Nacional de Direitos Humanos. Nem por isso a luta se tornou mais fácil:
a Febem fechou as portas para as visitas da associação e de outras
entidades de direitos humanos. Agora, o telefone da AMAR não pára de
tocar: as mães querem saber por que seus filhos trancados, humilhados e
sem escola decente não podem ser transferidos para aquela unidade com
piscina e computador que aparece nas propagandas do governo pela
televisão.
TRECHO 1
Marina
Amaral - Vamos começar com a senhora contando como se tornou presidente
da AMAR, como foi a sua história como mãe da Febem?
Conceição Paganele
- A minha história acho que é igual à de quase todas as mães que vieram
a ser mães da Febem, as mães que tiveram seus filhos internos na Febem.
Infelizmente, meu filho passou a ter envolvimento com drogas e busquei
na comunidade – no Fórum da Vara da Infância mais próximo da minha casa
– ajuda, de alguma forma, para que pudesse tratar o envolvimento dele
com as drogas. Não encontrei porque não existe. O Estado, o município e
a comunidade não estão preparados para receber, tratar ou dar atenção a
esses jovens que, infelizmente, se envolvem com o mundo das drogas. No
início, fui pagando ao traficante para que meu filho não morresse. Eu o
tirei várias vezes das mãos do traficante. Nós entramos muitas vezes no
meio do tráfico, no meio de lugares horríveis – eu e meu filho mais
velho costumávamos falar que íamos ao inferno e conseguíamos sair.
Porque entrávamos altas horas da noite em locais assim...
Mylton Severiano - Em que bairro era isso?
Conceição Paganele - Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.
Marina Amaral - E o seu menino tinha que idade nessa época?
Conceição Paganele
- Na época, ele tinha 15 para 16 anos. Isso, quando descobrimos.
Desconfiei do envolvimento com as drogas quando ele não recusava ir à
escola, tinha muita vontade de ir à escola. Ele estudava de manhã e,
quando eu o acordava, ele rapidinho levantava e ia. E antes ele não era
tão disposto, tinha sempre aquela manha, aquele pouco de preguiça.
Palmério Dória - Perdão, que tipo de droga?
Conceição Paganele - No início foi a maconha, mas depois vieram outras mais fortes, como a cocaína, o crack.
José Arbex Jr. - A senhora disse que pagava o traficante. Como é isso?
Conceição Paganele
- Pra que ele não matasse o meu filho, pois ele estava devendo para o
traficante. Houve ocasiões de o traficante ir na minha porta para puxar
a arma e tirar a vida do meu filho.
Palmério Dória - Por quanto ele mataria o seu filho?
Conceição Paganele - Por 5 reais. Por 1 real que se deva no tráfico, se mata. Não se pode dever no tráfico, de jeito nenhum.
Palmério Dória - Tem data marcada para pagar?
Conceição Paganele
- Tem, e não pode ultrapassar. Se eles derem um prazo de dois ou três
dias, tem de ser em cima daquela data, senão paga com a vida mesmo. E a
da família também.
Sérgio de Souza - Como são esses lugares infernais? Como a senhora os descreveria?
Conceição Paganele
- Numa época da vida, quase me tornei uma indigente de uma praça lá na
Cidade Tiradentes, porque saía depois que meus outros filhos dormiam e
ia atrás desse, que é o caçula, naquela praça que eu sabia que era um
local de tráfico. Eu ficava no meio dos usuários de drogas e até dos
próprios traficantes. Eles fumavam muita maconha. Achava que, estando
ali próxima, até do próprio traficante, estava garantindo a vida do meu
filho, e de certa forma estava. Chegou um momento em que vizinhos
chamaram a minha filha e falaram: “Tira a sua mãe de lá, porque vai
chegar um momento em que ela será presa. Na hora em que a polícia
abordar, vai achar que ela está no meio do tráfico”. Graças a Deus,
quando houve essas abordagens, eu não estava lá. Mas eu não tinha medo,
pois achava que alguma coisa iria acontecer e que não iria presa,
porque eu estava ali zelando, procurando, esperando o meu filho. E um
dia ele me avistou, mas, como não queria me ver, ficou longe e seguiu
para outro lugar. Aí veio uma moça que era namorada de um dos rapazes e
me falou que sabia onde estava o meu filho – isso era mais ou menos
umas 2 horas da manhã, no mês de junho, aquele sereno, aquela garoa bem
gelada. Eu falei: “Me leva lá”. E ela disse: “Levo”. E fui com duas
mocinhas. É numa escadaria – em que passo quase todo dia –, lá em cima
ficam os bandidos, uma quadrilha bem organizada...
Guilherme Azevedo - É na Cohab?
Conceição Paganele
- É. E lá estava o meu filho com 15 anos. Era uma noite escura, estava
esquisito mesmo o tempo. Então vieram aqueles homens todos com armas
nas mãos. Um falou assim: “Aí, tia, ainda bem que você está de saia” –
pois eu estava com uma saia longa, já toda molhada pela garoa – “e a
gente percebeu que era mulher. Nós estamos à caça de...”. Ele disse
alguma coisa que não entendi o que era e falei: “Eu estou procurando o
Cássio, sou a mãe do Cássio”. Eles falaram: ”Cássio? A gente não
conhece nenhum Cássio”. “Mas me falaram que ele está por aqui, no final
de uma escada”. Daí um falou: “Ah, o Cau”. Eu falei: “É”. “Ah, está
bom. Vamos lá, que ele está lá.” E lá encontrei o meu filho cercado por
outros jovens, até adolescentes e outros maiores. Nessa época, ele era
usado como “aviãozinho”. Por exemplo, o bandido precisava de uma arma
para fazer determinado serviço, ou precisava das coisas deles lá, e o
mesmo era usado para isso, então ia correndo pegar aquela arma, buscar
droga, sei lá. E ele já estava usando drogas. Nesse dia, em que me vi
naquele lugar horrível, tão escuro, tão frio, com aqueles homens altos,
mal-encarados, nesse dia eu considero que fui ao inferno e voltei. Teve
um outro episódio com o meu filho mais velho em que ele entrou também
numa bocada terrível e, quando chegou em casa, as roupas dele fediam a
drogas. Ele foi justamente fazer um acerto porque os caras queriam
matar o irmão mais novo. Então ele foi lá, conversou e fez um acordo
com eles, marcando que no outro dia levaria o dinheiro. Esse dinheiro,
a gente pegava emprestado, com agiota, empréstimos... Fomos perdendo.
Acabei perdendo cartão de crédito, talão de cheque. A gente foi se
envolvendo bastante com os pagamentos. Mas a droga é um saco sem fundo,
não adianta, não temos condições de suprir a necessidade das drogas,
principalmente gente pobre. Mas não queríamos, de nenhuma forma, que
meu filho morresse nas mãos dos traficantes. Um dia, eu estava com uma
banquinha de pastel num evento que aconteceu na comunidade, e a minha
filha foi me buscar, foi correndo atrás de mim, porque o meu filho
tinha sido ameaçado na esquina por um rapaz que passava drogas, por
causa de 5 reais. Minha filha dialogou com ele: “Espera só um
minutinho, que a mãe vai chegar e vai te dar esse dinheiro”. Tirou o
meu filho do meio deles e levou para dentro, e o cara ficou me
esperando na porta.
Palmério Dória - Como o seu filho se comportava dentro de casa? Era agressivo?
Conceição Paganele
- Não, no começo ele era tranqüilo, porque a maconha deixa tranqüilo.
Quando ele estava só na maconha, só dormia e comia. Só que ele queria
comer a casa inteira.
Palmério Dória - A maior larica, né?
Conceição Paganele
- É, ele consumia tudo. Mas, aí, como ele era adolescente, eu não sabia
se era droga ou se era da própria adolescência aquela coisa estranha de
dormir e de comer. Foi quando começou. Depois, na cocaína, ele ficava
agressivo. Durante o uso, enquanto estava drogado, ele não era
agressivo, mas depois ficava assim.
José Arbex Jr. - Era cocaína ou crack?
Conceição Paganele - Crack.
José Arbex Jr. - Depois da cocaína?
Conceição Paganele - Aí veio o crack.
Mylton Severiano - E aí ele foi parar na Febem?
Conceição Paganele
- Chegou um momento em que não tínhamos mais condições de pagar. Fui no
Conselho Tutelar, mas não tem uma clínica, não tem nada para onde eu
pudesse encaminhar esse jovem. Procurei a imprensa, procurei os
gabinetes de deputados, procurei muita gente, para alguém conter o meu
filho de qualquer forma, porque ele ia matar algum amigo, porque a
situação dele era muito grave. Mas não encontrei apoio nenhum.
Palmério Dória - A iniciativa de ele ir para a Febem foi da senhora?
Conceição Paganele
- Não. Ele roubou. Roubou para esses próprios traficantes. Estava
devendo uma quantia e eles o convidaram pra roubar. Era de um carro que
eles precisavam. Conseguindo roubar aquele carro, ele pagaria a dívida,
mas foi preso.
Sérgio de Souza - Quantos filhos a senhora tem?
Conceição Paganele - Tenho cinco, aliás, seis, porque tenho um filho adotivo de 8 anos.
Sérgio de Souza - Esse foi o único que deu problema?
Conceição Paganele - É. Só o meu caçula.
Palmério Dória - E aí esse inferno começou na Febem?
Conceição Paganele -
Já era muito difícil a questão da droga, mas, quando ele foi preso,
alguém me falou que ia para a Febem – até então, eu não tinha
conhecimento do que era a Febem.
Givanildo Silva - Qual era a idéia que a senhora tinha da Febem?
Conceição Paganele -
Quando procurei saber o que era Febem, a Fundação do Bem-Estar do
Menor, pensei: “Graças a Deus. Ele vai para um local onde será tratado.
Vai ter apoio, vai ter tudo aquilo que eu não tive condições e não
encontrei nem na comunidade, nem no município, nem no Estado”. Achava
que lá dentro ele ia ter assistência, ia estar contido, ia ter
psicólogos, trabalhos profissionalizantes, tudo. E fiquei feliz quando
aconteceu isso. Triste era quando meu filho estava preso dentro de uma
delegacia, algemado. Foi muito difícil para nós, principalmente quando
a polícia chegou na minha porta com o carro da Rota, foi engatilhando
aquelas armas pesadas no meu portão e falou assim: “A senhora tem mais
filhos? Eles trabalham ou são todos bandidos?” Foi dessa forma que eles
nos abordaram na minha casa, aí falaram que na minha casa tinha armas.
Minha filha abriu os portões e falou assim: “Entre e procure a arma e a
droga que tenha dentro da minha casa”.
TRECHO 2
Givanildo Silva - Dona
Conceição, uma curiosidade minha: os evangélicos têm um rigor em
conduta e tudo o mais. Sendo evangélica, como viu seus valores quando a
polícia chega e diz que seu filho é bandido e, de repente, é preso numa
delegacia?
Conceição Paganele - É uma vergonha geral,
né? É uma coisa muito triste. Depois de ir na Imigrantes e encontrar
meu filho naquele estado, cheguei em casa – minha irmã era conselheira
tutelar – e fui correndo falar com ela que algo teria que ser feito,
porque as mães, os pais de família não poderiam passar por tamanha
humilhação, não poderiam ser maltratadas pessoas decentes, porque ali
não estavam só os traficantes ou a quadrilha organizada – que se
organizou justamente porque não tiveram outro meio, porque não lhes foi
dada melhor oportunidade de vida, por isso se organizaram no mundo do
crime, no mundo do tráfico, como aconteceu com o meu jovem, que com 14
anos pegou a carteira profissional dele e foi procurar serviço. Bateu
em muitas portas, o sonho dele era ser office-boy, ganhar os três
primeiros salários e comprar tudo de roupa no shopping. E, como ele
morava na Cidade Tiradentes, que é longe, e a escolaridade era 5a
série, ninguém lhe deu oportunidade, e aí veio a decepção das drogas,
de ele ingressar nesse mundo. Devido a isso, tudo acontece terminando
na Febem. Mas acho que nenhum ser humano, nenhum pai de família deve
passar por isso. Eu falava para a minha irmã: “Algo tem que ser feito,
porque não é possível”. E ela dizia: “Você acha que outras pessoas já
não tentaram? Você pensa que é fácil? Você não vai conseguir, porque é
uma instituição muito fechada, não adianta”. Eu falava: “Não. Alguma
coisa precisa ser feita”.
Givanildo Silva - Queria emendar
outra pergunta. Podemos dizer que os evangélicos, do ponto de vista da
conduta, são muito conservadores. Qual era o seu olhar em relação aos
meninos de rua, ou aos que estavam na Febem antes de o seu filho ir
para lá?
Conceição Paganele - Eu nunca me incomodei
muito, não me preocupava com essa questão. Via muito meu lado pessoal:
eu, viúva, cinco filhos, tive que trabalhar muito duro e achei que
tinha dado o melhor de mim na educação, na criação dos meus filhos. Um
dia, me vendo muito triste, o mais velho falou: ”Mãe, não fique triste.
As coisas ruins não acontecem só na casa do vizinho, acontecem na casa
da gente também”. Ele disse isso no dia em que o irmão foi preso. Então
comecei a perceber que aqueles meninos que estavam no tráfico ou na rua
tinham também uma história de família e, infelizmente, por algum
motivos tiveram aquele destino.
Palmério Dória - Numa hora, a barra pesou. Qual foi o momento em que a senhora ficou totalmente alarmada?
Conceição Paganele
- O momento mais difícil foi quando meu filho, no começo da rebelião,
tentou fuga e quebrou os dois calcanhares. Ele não tem calcanhar, tem
platina, então tem uma deficiência hoje, infelizmente. E a minha maior
mágoa da Febem, e aí realmente achei que algo tinha que ser feito, foi
quando ele ficou jogado por três dias num PS do Hospital do Tatuapé e
ninguém me comunicou; na minha casa tinha telefone e eu era uma mãe
presente. Fui avisada por uma senhora da Igreja da Graça. Ela passando,
evangelizando o hospital, e ele implorou que ela ligasse para minha
casa, pedindo que eu fosse para o hospital, que ele estava morrendo. E
essa senhora me ligou por volta das 5 horas da tarde, já no terceiro
dia, eu liguei na unidade e a assistente social, a Andréa, falou: “Não
se preocupe, dona Conceição, porque ele está bem. Inclusive, já tentou
outra fuga”. Eu falei: “Andréa, não acredito. Meu filho tem as duas
pernas quebradas”. “Ah, mas a senhora não vai poder visitar hoje,
porque tem que fazer uma autorização”. E eu falei: “Se vira, faça a
autorização, porque estou saindo da minha casa agora e vou ver o meu
filho”. “Mas vai chegar depois das 7.” “Não importa. Às 10 que eu
chegue, estou indo ver o meu filho.” Aí, quando cheguei – ele é
clarinho, eu sou mais morena –, as pernas dele estavam muito inchadas,
pretas igual carvão, havia bolhas de água muito grandes, parecia
queimadura, e ele urrava naquele PS, naquele corredor. Fui entrando e
já ouvia os gritos dele. E veio aquela burocracia, que não podiam
deixar eu entrar. Mas, depois de dizer que era a mãe e não estava
sabendo do ocorrido, me liberaram quinze minutos pra ficar com ele. E
eu era tão leiga no assunto, tão ingênua, que não sabia que poderia
ficar acompanhando o meu filho, porque isso é garantido pela lei. Ele
tinha direito a um acompanhante, mas ninguém, nem da unidade, nem os
procuradores do Estado da Vara da Infância, liberou essa informação.
Marina Amaral - E nem o próprio hospital?
Conceição Paganele
- Não. O hospital me discriminou porque o meu filho era da Febem e
tinha uma escolta, e eu não poderia vê-lo, nem estar presente, porque
ele era infrator. Eu falei: “E daí? Para o Estado, ele é infrator; para
mim, não, sou a mãe; e para vocês ele é paciente – está aqui porque
está doente”. E aí comecei uma briga muito grande dentro desse
hospital, mas sozinha, porque não conhecia nada da lei, não conhecia o
Estatuto da Criança e do Adolescente, não conhecia ninguém que pudesse
me orientar. Aí, no outro dia, busquei o Conselho Tutelar, não foi nem
a minha irmã, foi a Conceição, uma conselheira, quem me orientou e fui
ao Fórum. Lá, o doutor Flávio, procurador, fez um documento, o juiz
assinou, me dando autorização de ver meu filho nos dias de visita, mas
só no horário de visita. Até nisso, o Estado me deve, porque também me
discriminou. Não é possível que um procurador não saiba que meu filho
tinha direito até a acompanhante e que eu era mãe dele, e o juiz
assinou uma autorização de vê-lo somente nos horários de visita, não
poderia permanecer nem um minuto antes, nem um minuto depois dessa
visita.
Sérgio de Souza - Em que ano foi isso?
Conceição Paganele - Em 1998.
José Arbex Jr. - Dona
Conceição, uma coisa me despertou curiosidade. Quando um alcoólatra não
consegue mais álcool, ele entra em síndrome de abstinência, a mesma
coisa no caso de crack, ou de cocaína. Quando o seu filho foi levado à
Febem, ele conseguiu ou não drogas lá dentro?
Conceição Paganele - Conseguiu.
José Arbex Jr. - Como funciona isso lá dentro?
Conceição Paganele -
O que a gente sabia é que alguns funcionários mantinham os dependentes
com a droga mais leve, a maconha. Era preciso manter para não haver
essas reações, por exemplo, de fuga, de se exaltar mais. Depois foi
analisado, pelo menos a equipe técnica falou que a questão de ele
tentar fuga era justamente o momento de abstinência, ele tinha muita
ansiedade.
José Arbex Jr. - Mas os funcionários mantinham o
abasteci-mento de drogas legalmente, com assistência médica? Ou era por
fora, eles ganhavam dinheiro com isso?
Conceição Paganele - Não,
com meu jovem, não. O meu, pelo menos... Houve casos de tráfico dentro
da Febem, teve meninos nossos que foram usados lá dentro para fazer o
próprio tráfico. Tem uma mãe nossa da AMAR que contou isso.
Givanildo Silva - Mas
aí a questão é outra, porque existe a possibilidade de usar drogas de
forma medicinal. Era usada dessa forma dentro da Febem?
Conceição Paganele - Não de forma medicinal, mas assim: um determinado funcionário entrava com uma pouca quantidade de...
Givanildo Silva - Mas ele fazia o tráfico?
Conceição Paganele - Não, porque ele não vendia.
Sérgio de Souza - Era de graça?
Conceição Paganele - Nessa unidade em que Cássio ficou era, mas a gente teve conhecimento de outra unidade em que era vendida.
José Arbex Jr. - Agora, essa droga que não é vendida, que é dada para evitar a síndrome de abstinência, ela é dada com cuidados médicos?
Conceição Paganele
- Não tem nada de cuidados médicos, não. Os meninos mesmo pediam: “O
seu fulano aí é legal, esse monitor é legal”. Ele trazia...
Givanildo Silva - É o “paga-pau”.
Conceição Paganele
- É o “paga-pau”, ele trazia. A gente teve conhecimento – isso não
aconteceu comigo – de um caso em que o monitor foi até a comunidade
onde um menino morava e lá tinha um determinado cara que ia mandar a
droga para ele.
Sérgio de Souza - O que é “paga-pau”?
Conceição Paganele - É aquele monitor que faz mais ou menos o jogo dos meninos.
Givanildo Silva - Tem o “paga-pau” e tem o “bate-pau”.
Palmério Dória - O assédio sexual como se manifesta? Vocês tiveram alguma conversa sobre isso? Eu queria ir além também, tortura e tudo mais.
Conceição Paganele -
De torturas, eram muitos casos. O Cássio só apanhou uma vez dentro da
unidade, de monitores. Não sei se é porque a minha irmã era conselheira
e eu fui uma mãe muito insistente também, fiquei naquela porta da
Imigrantes, montei ali uma vigília. E chorava muito, então fui uma mãe
que chamou a atenção lá dentro: “Por que é que essa mãe vem quase todos
os dias na porta e chora?” E aí a minha irmã, vendo meu sofrimento,
acionou os Conselhos Tutelares e, quase todos os dias, duas vezes por
semana, o Conselho Tutelar ia até lá. Foi a época em que vi mais
Conselho Tutelar na Febem, que eu enchi o saco mesmo. Eu exigia, pedia,
movimentava coisas, e aí o Conselho Tutelar chegava e já tirava ele de
lá, abraçavam, beijavam, a minha irmã chegava, abraçava, ia lá e
entrava mesmo: “Olha, é do Conselho Tutelar, vamos ter problemas”.
Então, meu filho foi, de certa forma, poupado de tortura física, mas a
psicológica continuou.
Julianne M. do Carmo - Quanto tempo ele ficou lá?
Conceição Paganele - Na Imigrantes, ele ficou dois meses.
TRECHO 3
Givanildo Silva -
Tem doze anos o Estatuto da Criança e do Adolescente. No artigo 259,
ele diz que, noventa dias contados a partir de sua entrada em vigor,
Estados, União e municípios deveriam reordenar o seu atendimento à
criança e ao adolescente. Aqui em São Paulo, o Conselho Municipal, o
órgão que delibera e controla as políticas de direitos da criança e do
adolescente, negou todos os registros da Febem, nenhum programa dela
tem registro, logo, a Febem está na ilegalidade. O Conselho Nacional de
Direitos da Criança e do Adolescente tem uma resolução de 1966, a
46/96, que diz que o número máximo de adolescentes por unidade de
internação não pode ultrapassar o total de quarenta, e essas crianças e
adolescentes têm que estar próximos de suas casas e a comunidade
envolvida no processo pedagógico das unidades. Por último, o Conselho
Estadual da Criança e do Adolescente, em 1999, depois dessas rebeliões,
principalmente na Imigrantes, estabeleceu como deveria ser o
atendimento da Febem aqui de São Paulo. A quem interessa continuar esse
modelo Febem? O governo do Estado tem dito várias vezes que não existe
proposta para a Febem, mas quem administra a área da infância sabe que
já fizemos oito propostas de reordenamento institucional, inclusive com
a presença do governo. A quem interessa que a Febem continue na
ilegalidade, a quem a senhora atribui esse desejo perverso de os
meninos continuarem nesse modelo, sendo que a sociedade deu resposta,
os conselhos já deram resposta e o ordenamento jurídico diz que esse
modelo não deve continuar como está há doze anos?
Conceição Paganele
- O que a gente tem analisado, nós da AMAR, mães, é que não interessa
aos governos investir muito nos jovens da periferia – porque quem está
hoje na Febem é classe popular. Se fosse o filho da classe média, com
certeza já teria mudado essa questão toda, mas não é o filho do senhor
Alckmin, do seu Mário Covas, que foi quem ficou aí durante toda essa
questão de piora da Febem.
Palmério Dória - Algum deles já chamou a senhora para conversar?
Conceição Paganele
- De jeito nenhum. E nos conhecem. Nós fomos ao palácio, na época do
Mário Covas, levar nossas reivindicações lá e pressionar pelas
mudanças. Mas o governo não está preocupado com a pobreza, com a
miséria, o que vejo é assim: quanto mais cesta básica e tíquete de
leite, mais votos garantidos. Quanto pior parece que é melhor para os
políticos. Dão tíquete de leite, cesta básica, bloco, cimento. Eles
querem investir nisso e não nas políticas sociais de atendimento a
esses jovens. Por exemplo, agora na Febem: “Estamos investindo, tem
cursos...”. Tem cursos, sim, acabei de pegar a semana passada uma
medalhinha com o diploma de mérito de um menino que se tornou pintor.
Ele nem sabia o que era aquilo, ele falou: “Eu não sei pra que me deram
isso, eu nem sei o que é isso”. “Como, você não sabe?” Eu fui na
unidade, entrei junto com a igreja, distribuí sorvetes na festa do
sorvete, porque queria saber dessa história. Fui até esse jovem. Ele
falou: “Eu nem sabia!” Eu falei: “Mas o que é que você pintou? Que
profissão você aprendeu aí? Você fez vinte horas de um curso
profissionalizante que está te preparando para enfrentar a vida lá
fora”. Ele falou: “O que é isso? A senhora tá louca? Eu não fiz nada
disso”. “Menino, como? Você recebeu um diploma.” Ele disse: “Acho que
ajudei a pintar as paredes da escola técnica, da escola
profissionalizante”. E já é um profissional, tem um diploma da Febem de
profissional, era só isso que eu queria saber.
Marina Amaral - Durante o tempo que seu filho ficou na Febem ele estudou? Tinha aulas normalmente? Como era?
Conceição Paganele
- Tem uma escola dentro da própria unidade, ele estava na 5» série,
então ficava numa sala de aula onde tinha 5», 6», 7» e 8», todos ali
juntos. Em dois dias, da 5», ele passou pra a 6», e passou pra 7» e pra
a 8» rapidinho. Ele tem um histórico de 8» série, só que é
semi-analfabeto de 5» série. A escola aqui fora já é essa qualidade
“maravilhosa” que a gente tem, e dentro da Febem é muito pior. Ele hoje
não encontra colocação na escola, não estudou mais na comunidade, não
aceita continuar uma 8» série porque não tem capacidade, ele se acha 5»
série. Ele brigou na escola porque queria uma vaga de 5» e a escola não
podia dar porque ele tinha uma declaração de 8». Então, “tem escola”,
eles falam: “A gente está investindo”. Mas tem curso assim: o menino
vai lá, pinta a parede com alguém e é um profissional. São esses os
cursos profissiona-lizantes. A escola profissionalizante da Febem do
Tatuapé é bem equipada. Eu visitei a funilaria, a pintura, a mecânica,
a de lapidação de vidros, que achei muito bonita, a tapeçaria...
Johnny - Mas os meninos utilizam?
Conceição Paganele
- Não, é muito pouco o que eles utilizam; o curso é de vinte horas.
Profissionaliza alguém pra que possa enfrentar a comunidade lá fora?
Não, ele não sai profissionalizado de lá, de jeito nenhum, é um
passatempo, quando alguns conseguem desfrutar dele, pois nem todos
conseguem. Eles vão mais pra sair dos muros fechados, pra andar ali
fora um pouquinho.
Palmério Dória - E as meninas infratoras, existe na periferia caso de meninas enquadradas?
Conceição Paganele
- Sim, há meninas. O número é bem menor, mas tem. Geralmente, o negócio
de tráfico, pra ganhar dinheiro. Na Cidade Tiradentes temos uns casos
bem sérios, que eu nem sei como resolver e para os quais tenho buscado
ajuda. Temos várias meninas, mas uma me chama a atenção – ela tem um
filhinho e hoje passa droga no centro da cidade, pra sobreviver. Essa
menina vai pra Febem porque será pega com uma quantidade enorme de
drogas.
Cuca - No que consiste o trabalho efetivo de vocês hoje?
Conceição Paganele
- É dar apoio a essas famílias que se encontram em desespero. Porque
hoje a AMAR é uma grande família, uma mãe se apoiando na outra. Nós não
temos vergonha de abrir, falar das drogas do meu filho ou do roubo que
ele praticou, porque sabemos ter o mesmo problema, que só nós vamos nos
entender e nos apoiar. Aí, ninguém vai discriminar...
José Arbex Jr. - Qual a situação do seu filho agora?
Conceição Paganele -
Meu filho não se livrou do vício das drogas, que eu encaro hoje como
doença, meu filho é doente e precisa de tratamento, de ajuda e não de
discriminação. Infelizmente, ele entrou num mundo que eu creio que
tenha saída, porque acredito que todo ser humano é recuperável.
Sérgio de Souza - Ele está solto?
Conceição Paganele - Não, está preso.
Guilherme Azevedo - Ele saiu direto da Febem e foi preso?
Conceição Paganele - Ele saiu, se envolveu novamente com drogas e foi preso. Cometeu um roubo novamente, para comprar drogas.
Julianne M. do Carmo - Quantas pessoas tem a AMAR hoje?
Conceição Paganele
- Na direção da AMAR temos dez pessoas, mas as mães que a gente atende
é uma coisa muito oscilante: depende dos problemas que ela tem, ela
vem, resolve e vai embora.
Julianne M. do Carmo - Aquelas 32 que começaram continuam?
Conceição Paganele - Ah, não. Daquelas 32, nós somos três, as outras estão cada uma cuidando de sua vida.
Sérgio de Souza - Existe uma preocupação com as mães de outros Estados, existe um trabalho desse tipo?
Conceição Paganele -
Quando foi feita uma matéria na revista Sem Fronteiras, houve muitas
cartas de pessoas de comunidades de outros Estados nos procurando,
pedindo um histórico da AMAR, como começou etc., porque elas gostariam
de começar um movimento lá em seus Estados. Mandei, pra todos que me
pediram, um histórico, um release até mostrando da necessidade de AMAR.
José Arbex Jr. - E seus outros filhos, como vêem a sua luta?
Conceição Paganele -
No começo, achavam que eu era louca, principalmente quando ficava uma
semana dentro da Febem. Era entrar em um momento de rebelião, eles
ficavam em casa se descabelando. Denunciar, pra eles, é uma loucura que
eu cometo. Uma época, eles achavam que tinham que me prender em casa,
porque eu podia ser morta a qualquer momento. É que denunciei também a
polícia.
José Arbex Jr. - Agora, seus filhos se acostumaram com a idéia?
Conceição Paganele
- Agora, eles acham interessante. Quando vai passar alguma matéria no
jornal, na televisão, todo mundo lá da comunidade pára num barzinho e
fica assistindo.
Marina Amaral - Se tivesse acontecido o que aconteceu com seu filho hoje, seria diferente? A sua luta mudou alguma coisa?
Conceição Paganele -
Mudou, pra mim, porque aprendi bastante, ganhei experiência que eu não
tinha, e já mudou pra muitas mães também, porque a gente vai se
conscientizando, formando para exigir tudo aquilo a que tem direito.
Marina Amaral - E
a estrutura em si? A Febem como a senhora encontrou antes e agora, as
possibilidades de tratar um filho dependente químico, houve alguma
evolução?
Conceição Paganele - Não. Até hoje não existe uma
unidade nem no município, nem no Estado, nem na Febem, ninguém está
interessado no usuário de droga. Cheguei a ir numa clínica muito
chique, conversar lá com um doutor, através de uma amizade, e ele me
recebeu e lá tinha pessoas de classes altas. Quem está numa crise igual
à que eu estive com o meu filho, a família liga pro hospital, uma
ambulância vai lá, leva, interna, faz a desintoxicação, vai depois
abrindo aos poucos para o tratamento ambulatorial, vai reconduzindo aos
poucos à sociedade.
Julianne M. do Carmo - E o que a senhora sentiu quando foi nesse lugar?
Conceição Paganele - Eu senti que é horrível ser pobre. É terrível.
José Arbex Jr. - A senhora diria que, da molecada que está na Febem, a grande maioria é por causa da droga?
Conceição Paganele - Sim. Para a maioria, a porta de entrada foram as drogas.
Entrevistadores: Cuca, Givanildo Silva, Guilherme Azevedo, Johnny, José Arbex Jr., Julianne M. do Carmo, Marina Amaral, Marina Vergueiro, Maurício Torres, Mylton Severiano, Palmério Dória, Sérgio de Souza.
